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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Grandes Esperanças

Era uma noite chuvosa, dessas em que os raios nos causam um arrepio e os trovões chegam a assustar. Lá fora, o vento criava açoites com a forte chuva que caia. A falta da energia elétrica mergulhava a cidade na escuridão. Dentro de casa ele andava com uma vela grudada na tampa de um vidro de Nescafé, igual sua mãe tantas vezes fez quando ele era criança. Porém, ao contrário dela, ele não tinha medo da tempestade. Achava bonito de ver a natureza mostrando a sua força. Para ele, era uma noite bonita. Uma noita em que a natureza mostrava uma de suas faces e ele a respeitava por isso. A respeitava pelos sábados ensolarados, pelos domingos calorosos e também por esta sexta-feira chuvosa. Não havia nada para fazer. Acostumado com a comodidade da energia elétrica, ele não podia ligar seu computador ou mesmo assistir a um DVD. "Como é que nossos antepassados viviam? Como eles faziam com seus e-mails?", pensa ele. Logo, apanha um livro na prateleira e vai para o quarto. Recosta-se em seu travesseiro e abre as páginas de "Grandes Esperanças", de Charles Dickens. Ele já havia lido esse livro em repetidas ocasiões, mas vez por outra o tomava apenas para reler alguns diálogos. Nesta noite ele o fez novamente durante algum tempo, chegando a adormecer com o livro em seu peito. A vela ao lado de sua cabeceira flamejava fracamente, perdendo o brilho e aos poucos sendo vencida pela escuridão, que tomava conta do quarto. Barulho na porta. Uma, duas batidas. Ele abre os olhos na escuridão, pensando ter ouvido algo. "Imaginei", pensa. Pam-pam-pam. Sim, havia alguém à porta. Mas quem a essa hora? Ele levanta tateando pela casa, vai acender outra vela. Pam-pam-pam na porta.
- Já vou.
Ele avisa, enquanto acende outra vela e direciona os passos rumo à porta da frente. O relâmpago revela uma silhueta de mulher. Ao abrir a porta, um pé-de-vento sopra a vela. Na escuridão, ele não decifra o rosto, mas ouve a voz.
- Posso ficar aqui essa noite?
Ela diz, entrando. Ele, totalmente tomado pela surpresa se mantém estático, ainda com a mão ao trinco da porta.
- Eu posso?
Ela repete a pergunta.
- Oh, sim, claro...
Ele responde apalermado, com o coração tomado por uma súbita aceleração.
- Desculpa aparecer assim...
Ela tenta justificar-se.
- Aconteceu alguma coisa?
Ele pergunta, procurando esconder a alegria dela estar ali, não importando o que tivesse acontecido.
- Prefiro não dizer...
Ele controla a curiosidade, afinal, pouco importava. A presença dela mesmo que fosse por breves instantes enchia a casa (e a vida dele) de luz. Mesmo que a casa (e a vida dele) estivessem mergulhados na escuridão.
- Que livro é esse em suas mãos?
Ela percebe. Ele não se deu conta que ainda o segurava.
- É aquele do Dickens.
Ele revela.
- Ah, esse. Tem final infeliz...para ele.
Ela folheia as páginas iluminadas fracamente pela vela.
- Bobagem folhear um livro no escuro, né?
Ela diz, enquanto ele a alcança uma toalha.
- Tu está molhada. Posso ver alguma roupa para ti. Mas são as minhas, ou seja, vão ficar grandes em ti.
Ela sorri, não havia problema.
- Desde que tu me faça um café...
Ele separa a roupa e leva para ela. Depois, vai até a cozinha preparar o café. Tinha mil perguntas para fazer a ela. Algumas, ele teme a resposta. Para outras, ele tinha grandes expectativas. Mas faz de conta agir normalmente, como se todos os dias chegasse alguém à sua porta pedindo-lhe pouso e café. Ela pensou em dizer que não queria atrapalhar, mas sabia que ele iria responder com um sorriso e dizer que ela não o atrapalhava de forma alguma. Talvez até aproveitasse para dizer que ele a amava. Melhor não perguntar o que estava implícito. Mesmo no escuro, ela percebia o brilho no olhar dele. E sabia que seu coração se enchia de luz. Ela sabia o que significava para ele e se via invadida por mil lembranças felizes e outras nem tanto. Ele preparava o café com a máxima concentração, como se aquela xícara de café fosse a coisa mais importante do mundo. Queria agradá-la.
- Cuidado, está quente.
Bobo. Ele se achava um bobo em dizer coisas óbvias. Mas era ela que o desnorteava, o tirava fora de seu eixo, o transformava num menino inseguro e medroso. Vulnerável, ele tenta não encarar os olhos dela e refugia-se folheando novamente as páginas do livro. Ela bebe o café enquanto passeia o olhar pela casa fracamente iluminada pela vela. Às costas dele, em cima de um armário, ela percebe um porta-retrato com uma foto deles dois, juntos. Ele se constrange por isso. Fraco, bobo, patético, nostálgico, tolo.
- Esqueci de tirar daí, desculpe. Digo, pensei em tirar, eu devia ter tirado só que...
Ela o surpreende, calando suas palavras com um beijo. Um beijo com sabor de Nescafé. Ele a abraça. Primeiro com ternura, depois com fervor. E deixa "Grandes Esperanças" cair no chão...

No dia seguinte, após ter acordado tarde, ele recolhe o livro no chão da sala. A luz da manhã invadia a casa toda. Havia respingos de vela aqui e ali, mas nenhum outro vestígio. Toalha e roupas estavam no lugar. "Foi imaginação?", ele questiona, colocando a própria sanidade em dúvida. Tomado por um misto de dor, tristeza e raiva ele joga longe o porta-retrato, tranformando-o em cacos. "Estou ficando senil", ele sentencia. Senta no sofá para chorar. Apesar do sol ultrapassar os vidros da janela e repousar em seu rosto, ele achava-se na mais completa escuridão. "Chega de autopiedade", ele pensa, levantando-se para refazer-se com um gole de café. Foi quando percebeu em cima da mesa aquela xícara pela metade. E uma marca de batom.

10 segundos

Em silêncio, ele olhava para a sua bela esposa deitada e quase dormindo ao seu lado na cama. Há 30 minutos, os dois estavam com seus corpos colados e cobertos de suor. Ele deslizou a mão por suas costas macias e nuas, causando leves arrepios nela, que costumava gostar dessa sensação. Há 32 minutos eles gozaram juntos, depois de muito sexo. Em silêncio, ela sentia os dedos do esposo deslizarem por seu corpo, num carinho frio. Há 50 minutos ele tirava a roupa dela e chupava os seus seios com voracidade. Naquele instante, nenhum dos dois queria falar mais nada e ficavam ouvindo o próprio silêncio e adivinhando cada suspiro um do outro como se fosse o prenúncio para algo que seria dito. Nenhum dos dois quis dizer mais nada.
Ele levantou-se da cama e caminhou até a cozinha, evitando de pisar em cacos de vidro. Há duas horas, os dois tiveram uma terrível discussão, mais uma. Ele abriu a geladeira e pegou uma garrafa de água mineral, abri e bebeu num gole só, matando a sede e tirando o gosto do sexo dela que ainda sentia em sua boca. Há duas horas e quinze minutos ela arremessou uma travessa com lasanha no chão.
Depois de beber, ele foi até a torneira e encheu novamente a garrafa, colocando-a de volta na geladeira. Sabia que ela implicava quando ele as deixava pela metade ou quando o flagrava bebendo no bico. Há três horas, ele pediu o divórcio mais uma vez. No quarto, ela tentava dormir buscando esquecer as palavras duras que ele mais uma vez proferiu, com sua fúria. Há cinco horas ela cozinhava para ele, esperando-o. Com os olhos fechados, ela ouviu o barulho na cozinha. Por algum milagre, ele devia estar enchendo a garrafa de água. Há sete horas ela ligou para sua melhor amiga para chorar as mágoas, acreditando que ele estava se encontrando com a amante.
No banheiro, ele fechou o zíper de sua calça e puxou a descarga. Olhou-se no espelho, desgostoso com sua própria imagem. Há seis horas, ele prometeu para alguém que iria se separar. Ele caminha até o quarto onde repousa o seu filho e lhe beija a face. Há dois anos, ele o levava para o colégio pela primeira vez. Ela ouviu o barulho na porta do quarto do menino, o pai dele havia entrado lá. Há oito anos eles foram juntos no ginecologista.
No quarto, o menino dormia com seu MP3 nos ouvidos. Ele não queria ouvir a briga dos pais. Há oito anos, ele fazia fotos enquanto ela o amentava no peito. Ele fechou a porta do quarto e atravessou a casa sem fazer barulho. Pegou sua chave, abriu a porta dos fundos e caminhou em direção a garagem.
Há 10 anos ele conheceu sua esposa. Ela era linda e compreensiva. No quarto, ela ouviu o barulho da chave na porta dos fundos. Será que ele estava saindo furtivamente para encontrar aquela vadia de novo? Há nove anos, os dois ficaram noivos. Ela se vestiu rapidamente para seguí-lo, pois não aguentava que isso continuasse acontecendo, não era isso o que queria para a sua vida.
Na garagem, ele pensou várias coisas ao mesmo tempo, parecia que sua vida tinha se passado diante de seus olhos, todas as horas de sua existência com a velocidade de um piscar. Há oito anos, ele jurou que iria ficar com ela até que a morte os separasse e beijou seus lábios coloridos de batom.
Vestida, ela atravessou a casa, correu até a porta dos fundos e saiu para fora. Ela ouviu um som retumbante na garagem, alguma coisa tinha acontecido. Ela abriu a porta e o enxergou com a cabeça mergulhada numa poça de sangue e uma arma na mão. Há 10 segundos ele se matou...

domingo, 30 de setembro de 2007

Laços de ternura

Ambos nasceram em 1950, em meses diferentes. 14 anos se passaram e, em 1964, estudavam no mesmo colégio. Seus olhos testemunharam as transformações da época. Em 1965, ele notou o seu jeito de caminhar. Ela parecia deslizar pelo pátio da escola. Em 1966, sentaram lado-a-lado no ônibus. Em 1967, eram colegas de aula. Para eles, 1969, não foi lembrada pela chegada do homem à lua, foi o ano de seu primeiro beijo. Em 1973, ele a pediu em casamento. Em 1974, ela disse o sim. Em 1976, ele a traiu. Em 1977, ela pediu divórcio. Em 1981, reataram. Em 1983, assistiram juntos "Laços de Ternura". Ele jurou amá-la para sempre. Em 1984, ela fugiu com outro. Em 1985, ela escreveu uma carta, pedindo perdão e dizendo que o amava. O carteiro entregou o envelope a uma vizinha, que extraviou a carta, que ele nunca leu. Eles sempre se amaram.Em 2007, ele é guiado pelos corredores do supermercado por sua netinha, de 03 anos, espevitada. A pequena esbarra numa senhora e derruba sua cesta. Ele ajuda a recolher as verduras e olha em seus olhos. Os mesmos que, em 1969, o encantaram. Ele não repara nas marcas de um rosto de 57 anos. Diante dele, novamente a garota de 19 anos, para quem jurou amor eterno. Passaram-se tantos anos e, engraçado, parece que foi ontem. Ela pensa no que dizer. "Você leu a carta? Não significou nada?". Não, ela resolve calar. Ele força o joelho para levantar. Osteoporose. "Vamos embora, vô", insiste a pequena. Eles encaram-se uma última vez. Ele desculpa-se. "Crianças..". Dá de ombros. Suspiram. Ela sorri e encosta seus dedos nos dele, quando ele a alcança o maço de couves que caíra no chão...

Em pedaços

Saudades. Era o que ela sentia quando olhava para ele. Saudades da pessoa que ele um dia foi. Não era mais. A magia, o encanto havia se quebrado. Se a paixão é narcisista e só nos faz enxergar as familiaridades (eu gosto disso, você também...), esse misto de raiva e decepção só fazia apontar defeitos que antes, não fazia questão de enxergar. Sentia que cada dia morria um pouco. Sim, é verdade que morremos mesmo a cada dia, nos aproximando do minuto fatal. Porém, percebia que seus sentimentos desmoronavam a cada dia. Nesses momentos, em que o pranto lhe escorria pela face, seu coração apertava, pesava. E ela sentia saudades. Tinha saudades não mais do amor tresloucado e dos gestos grandiloquentes dos primeiros atos de romance.Tampouco tinha saudades do primeiro presente de Dia dos Namorados. Tudo era apenas promessa, ilusão, um conto de fadas, como toda relação inicia, fazendo com que acreditasse que eram predestinados a viverem lado-a-lado. Nesse tempo, era como se a terra fosse preparada e somente mais tarde, o amor brotasse como uma flor. E era disso que ela sentia saudades. Saudades da forma como o seu corpo se encaixava no dele (e como ele a recebia) nas noites chuvosas (ela tinha medo dos trovões). Saudades do olhar de cumplicidade e do sorriso desabrido. Saudade do cheiro e dos lábios carinhosos, não esses de hoje, frios e indiferentes. Ele, hoje um estranho, dormia ao lado dela. E ela tinha saudades de alguém que estava perto, mas que há muito havia partido. Em pedaços.

História com final triste

Essa é uma história de amor com final triste. Se você não gosta de histórias de amor, ou não gosta de finais tristes, desista. Além de ser uma história de amor com final triste, essa usa de dois personagens: um menino e um pássaro. Poderia ser qualquer outra coisa. Um homem e uma mulher, por exemplo. Mas não há nada mais bucólico do que uma criança e um pássaro. Assim como não há nada mais bucólico do que o início de uma história de amor. O conto serve como metáfora ao leitor para que o interprete como quiser.

"O menino tomou nas mãos o pequeno pássaro ferido por uma pedrada. Ele o levou para casa e sanou suas feridas. Contente, o pássaro entoava o seu mais belo canto. Por mais que voasse longe, ele sempre voltava para o menino. Um dia, o menino o pôs numa gaiola, para tê-lo sempre por perto. O pássaro entendeu aquilo como um gesto de amor, de proteção e achou bom, pois não precisaria mais voar atrás de comida. Mas numa manhã, ele despertou com o canto de outros de sua espécie, que voavam livres. Foi aí que percebeu que o amor do menino o tornara prisioneiro. Começou a cantar, triste. Era grato por tudo, mas não queria mais viver assim. O menino, incapaz de entender, continuava achando belo o seu canto e amando o pássaro na gaiola. A ave não sentia mais vontade de viver, nem de cantar, nem de comer, tampouco de ser admirado por alguém. E o pássaro morreu, consumido pela tristeza de não possuir mais a liberdade. E o menino chorava por ter perdido a ave que ele tanto amava...”

O caminho

Ele tentava parar. Sabia que as pessoas o julgavam e condenavam, atribuindo a ele inúmeros defeitos. Alguns, ele reconhecia, outros, "vinham de brinde", dizia. Mas, se questionava. "Será que sou assim?". A resposta, ele não sabia. Como também não sabia dizer os motivos pelos quais entrou por esse caminho. "Experimenta aí", foi o que um amigo lhe disse. E ele experimentou durante anos. E, adivinhe, acabou gostando. Achava que tinha mil motivos para isso. Era sua forma de se rebelar, de ir contra o sistema. Mas, preferia não apontar suas razões. Tinha medo de que seus argumentos fossem considerados ridículos ou mesquinhos. Mas ele tentava parar. Já tinha perdido amigos. Já tinha perdido oportunidades. E, sabia, estava perdendo a dignidade. "Você faz seu próprio inferno", ele pensava nisso. E tentava parar. Queria, sim, ser alguém na vida. Queria, sim, ter importância para alguém. Queria, sim, mostrar que também chorava. Que também sentia. Que também era humano.A verdade é que o mal o havia alcançado e ele não sabia como fugir disso. Para dentro do poço, nenhuma mão se estendia em sua direção. Em suas remotas lembranças de infância, pensa no avô, que o tomava no colo e dizia "será um grande homem". E ele tinha vergonha de ter traído o exemplo e a memória do avô. Não era um grande homem. Era um grande viciado. Mas ele tentava parar. Apesar de viver nas trevas, ele buscava alguma luz, mas só achava apoio entre os seus iguais, entre aqueles que dividia ilusões. "Experimenta aí". E ele experimentava. Num momento de êxtase (ecstasy?), viu-se caminhando em direção a uma luz muito intensa. Emocionado, ele abriu os braços e chorou: tinha encontrado o seu caminho. De dentro do trem, o maquinista avistou aquele jovem, com os braços abertos, percorrendo os trilhos rumo a locomotiva. E ele tentava parar...

Caixa de Pandora

Há vinte anos, quatro crianças brincavam despreocupadas, alegres, cheias de energia, apaixonadas pela vida e, algumas vezes, chateadas com os adultos. Em um dia, sem muito para fazer, surge a idéia de enviar mensagens para o futuro. O futuro delas. Numa caixa de ferro, colocam cada um, mensagens endereçadas para os adultos que um dia os quatro serão. Apelidaram-na de caixa de pandora (coisa de quem gostava de mitologias), enterraram-na e fizeram um mapa do local. Vinte anos depois, adultos, cada um toma o seu rumo. Um telefonema da irmã de um deles acaba por reuní-los. "Meu irmão morreu hoje". Cada qual, retorna à antiga cidade para dar o último adeus ao amigo. Reunidos pela dor, relembram os laços de amizade, rompidos pelo tempo. Há 10 anos, até mantinham certo contato, porém, restrito.

Durante o velório do amigo, lembraram dos tempos de outrora, das paixões de escola, das reuniões na casa de árvore, dos jogos de taco (com paus de lavar roupa e latas de azeite), dos banhos de sanga. Aquele reencontro só não poderia ser considerado especial por causa da ocasião: a morte daquele que era, na infância, o melhor amigo dos três. Após o enterro, trocam celulares, mas em seu íntimo, sabiam que isso poderia não mais ocorrer. Há 20 anos, eram eternos amigos. Hoje, traídores da infância vivida, eram praticamente três estranhos. Despediam-se. Cada um iria retornar para a sua vida. Eis que a irmã do amigo falecido surge com um envelope. "Ele queria que vocês ficassem com isso". Abriram e, dentro, um envelope. Surpresa e emoção. Era o mapa da caixa de pandora.

Com o mapa, os três amigos cavavam próximo a um pé de cáqui, onde haviam enterrado uma caixa de ferro contendo mensagens escritas há mais de vinte anos, quando eram crianças. Durante esse tempo, o mapa esteve em posse do 4° amigo, cujo falecimento resultou na reunião da velha turma. Encontraram a caixa. A primeira mensagem: "não queria crescer. Os adultos são chatos, brigam tanto. Mas espero não ser um adulto chato que não saiba entender as crianças". Riram da idéia. Segunda mensagem: "quero casar com a Thaís. Eu a amo mais do que qualquer coisa no mundo. Outro dia, ela me deu um beijo no rosto e isso foi a melhor coisa que aconteceu na vida. Me considerei especial. Mas ela beijou outro garoto da escola, também e eu fiquei triste.
"Gostaria de tê-la sempre por perto, para amá-la e fazer ela feliz. Minha missão no futuro será essa: ter alguém para amar. Sei que não posso fazer todos felizes, mas pelo menos uma pessoa posso fazer feliz. E só ela me basta para eu também ser feliz". Terceira mensagem: "não quero que o trabalho faça comigo o que faz com o meu pai. Gostaria que nem tudo fosse dinheiro. Há coisas que o dinheiro não pode comprar e nem se precisa de dinheiro para tê-las. Tenho os melhores amigos do mundo e nenhum centavo no bolso. Jogamos bola, comemos frutas, estamos sempre juntos. E ninguém tira nada de ninguém. No futuro, só quero ter amigos assim". O autor da carta não consegue deixar de derramar uma lágrima. Agora, a expectativa de abrir a quarta carta, a do amigo falecido.

No envelope, apenas uma semente e um bilhete "semeiem a 33 metros". Nada mais. A carta dele havia sumido e esse era seu legado. E assim foi feito. Os três amigos, separados pelo tempo e reunidos pela morte do 4° amigo, resolveram plantar a semente e acordaram que a partir daquela data, reuniriam-se todos os anos. E, assim, acompanharam a germinação da semente, transformando-se em arbusto e erguendo-se para a vida, criando folhas e estendendo seus galhos para o sol. Viram a árvore servir de abrigo aos pássaros, sombra para os peregrinos. Também testemunharam sua imagem frondosa servir de moldura para o primeiro beijo de um casal.

Já se passavam muitas primaveras do dia em que a semente havia germinado. Os três amigos chimarreavam próximo da árvore e observavam os seus filhos brincarem sob a sua sombra e alimentando-se dos seus frutos. Uma das crianças percebe a ponta de uma caixa de ferro, levantada pelas grossas raízes. Trataria-se de um tesouro? Desenterram. Era uma caixa de ferro, igual a outra. Pais e filhos, curiosos com o conteúdo. Era a mensagem do amigo, enterrada a 33 metros do antigo pé de caqui. A sua mensagem para o futuro, nada mais que o trecho de um poema:

"Eis o segredo que ninguém sabe
Aqui está a raiz da raiz
O broto do broto e o céu do céu
de uma arvore chamada vida.."

Nova velha vida

Quando jovem, ele nunca pôde comemorar o seu aniversário. Nunca soprou velinhas e coisas do gênero. Não tinha tempo (e nem dinheiro) para isso. Precisava trabalhar e sustentar a família. Hoje, aos 75 anos teria todo o tempo para isso. Mas não acha sentido comemorar mais um ano de velhice. Foi por por ter envelhecido que acabou parando num asilo. Hoje, sabe que esse lugar é a sua última morada. Abandonado, longe da família que ajudou a construir se vê sozinho em seu quarto que, para ele, é uma prisão. Assim como o seu corpo se transformou numa prisão. Antes, forte e disposto. Hoje, fraco e doente. Aos olhos dos filhos, deixou de ser um herói. Tornou-se um estorvo. No início, evitavam falar perto dele. Sussurravam.Cada qual manifestava os seus poréns. "Não posso ficar com o pai". Nenhum dos quatro filhos podia. Suas pernas já não funcionavam bem e tinha problemas de saúde. Mas sua cabeça e o seu coração ainda funcionavam. À noite, chorava, sentindo o desprezo dos filhos. Lembrou de um velho cão sarnento que vivia pela vizinhança, o qual ninguém queria perto. Nem tudo eram dores. No asilo, conhecia histórias semelhantes a sua e outras, ainda mais tristes. Cada um servia como apoio e conforto ao outro. Mas ele estava só. No início, as lembranças lhe açoitavam. Outras vezes, vinham como uma brisa suave. Durante muito tempo, chorou e lamentou ter perdido a família. Fazia um ano que estava no asilo. E, numa manhã, foi surpreendido pelos outros idosos. No dia de seu aniversário, fizeram um bolo e cantaram os parabéns. Lágrimas e compreensão. Ele tinha perdido a sua família. Mas Deus lhe dera outra.

Um herói de papel

Seu Silva chegou em casa feliz. Tinha sido o seu dia de sorte. Deu um beijo na esposa e a presenteou com um vestido novo. Para o seu filho, deu algumas revistas em quadrinhos. O garoto colecionava gibis de super-heróis. Sua esposa indagou o motivo dos presentes. Nada especial, apenas queria demonstrar que gostava deles. Ele resolveu manter em segredo que havia encontrado uma carteira na rua, recheada de dinheiro. "Achado não é roubado, quem perdeu é o relaxado", seu Silva pensou. Mas sabia que sua esposa não pensaria da mesma maneira. Se ele contasse, certamente ela iria lhe reprender. Mas, ora vejam, seus olhos brilhavam enquanto experimentava o vestido novo. Para quê estragar o momento? Seu Silva estava feliz. Pagou as contas, fez compras e ainda levou a esposa para jantar fora. Deus tinha lhe dado uma grana extra naquele mês."Perdi a carteira, mulher". Foi assim, de forma direta, que aquele senhor de idade deu a notícia para a companheira. E ele contou que havia sacado o dinheiro da aposentadoria de ambos no caixa eletrônico. Pôs o dinheiro na carteira e se foi fazer o rancho. "Me deu uma frouxura nas pernas quando vi que tinha perdido", ele disse. Sua esposa o consolou. Podia ser que alguém devolvesse. O velho quase riu da sua ingenuidade, mas se conteve. Seria como rir de sua própria desgraça. "Pelo menos, espero que quem tenha achado esteja precisando". O velho suspirou, ao pensar na peregrinação para refazer documentos, retirar novos cartões eletrônicos etc. "Vai ser um mês apertado". Nisso, uma batida na porta. Era um garoto, catador de papéis. Tinha achado no lixo a carteira daquele senhor. O velho, agradecido, abriu a carteira: nenhum centavo. Mas ofereceu como recompensa ao garoto uma caixa de gibis, que seu filho colecionou durante anos. O garoto agradeceu e foi embora. Feliz com os seus gibis de super-heróis. Sem saber que, naquele dia, ele tinha sido um.

Filosofia da Carroça

Seu Silva não tinha muito estudo. Ele dizia que sua maior escola foi a vida. Seu neto, Pedrinho, gostava de passar as férias com o avô, que sempre tinha alguma história ou filosofia para passar. Lá pela vila, naquele fundão de interior, existia um sujeito que tinha adoração por fofocagens, o Zé Corvo. "Um alcaide", como definia o seu Silva. Ninguém da vila dava crédito para o sujeito, a não ser o dono da venda, que gostava de estar bem informado. Para ele, era cômodo ter um sujeito volúvel como Zé Corvo do lado. Fora ele, todos eram desgostosos com aquele língua-de-trapo, sempre assuntando sobre a vida alheia, contando contos e aumentando pontos. Pois bem. Um dia, seu Silva cruzou por um amigo, que queria degolar o tal alcaide por umas intrigas que ele tinha feito. Seu Silva aconselhou. "Perdoe seus inimigos. Mas não esqueça seus nomes". O amigo se acalmou e foi para casa. Pedrinho perguntou. "Essa é do Kennedy, né vovô?". Seu Silva respondeu. "Não, meu neto. Que eu saiba, é do general Bento Gonçalves".Dias depois, Pedrinho soube que andavam dizendo que o seu Silva tinha um caso com uma solteirona da igreja, pura fofoca do Zé Corvo. Sua primeira reação era de dar uns estouros de facão no bobalhão. Mas depois pensou que ele era um infeliz mesmo. Pedrinho estava indignado. "Meu netinho, aprenda: vida longa aos seus inimigos para que possam aplaudir em pé a sua vitória". Pedrinho pensou e disse: "Essa é do Mark Twain, né vô?". Seu Silva respondeu que era do Garibaldi. Certo dia, um alvoroço na vila. Pedrinho veio correndo. "Botaram fogo na casa do Zé Corvo". Enquanto muitos diziam que aquilo era bem-feito, seu Silva tomou uma decisão. Ofereceu um galpão que ele tinha nos fundos de casa para que o Zé Corvo se ajeitasse por uns dias. Depois, Pedrinho questionou o avô. "Mas vô, ele falou mal do senhor e de todo mundo. Para quê ajudá-lo?". Seu Silva olhou bem para o netinho e respondeu. "Jamais devemos esperar dos outros o que eles esperariam de nós, assim como também jamais devemos deixar de fazer o que a nossa consciência nos diz que podemos fazer". Pedrinho pensou, pensou e questionou. "Essa eu não conheço. É do Garibaldi?". Enquanto fechava um "paieiro", seu Silva repondia. "Também não sei de quem é. Essa eu li na traseira de uma carroça de melancia"...

Namoro virtual

Era madrugada e eles ainda continuavam conversando pelo MSN. Às vezes, dialogavam até o amanhecer. Nem importava que fossem trabalhar com sono ou olheiras. Importava que eram namorados e estavam curtindo o melhor período da paixão: o da descoberta de afinidades.- Não acredito que você é fã do Bee-Gees. Eu também!!- O que? Você também gosta de comer poleta com leite? Não tá me debochando? Rssrs- Ah, não. Você também assiste X-Men Evolution?Pronto. Tinham descoberto que eram "almas gêmeas" e estavam, assim, apaixonados. A cada conversa, descobriam mais coisas em comum, veja só. Já namoravam há quase seis meses, sem sequer terem se visto uma única vez. Enviam-se e-mails, scrapps e tinham galerias de fotos um do outro em seus computadores. Até uma página no Orkut em comum.O romance ia tão bem que decidiram se encontrar pela primeira vez. Então, ele viajou 500 km para encontrar sua namorada virtual. Se encontraram. Era esquisito conversar, assim, sem ser por uma web cam. "Ele não é tão alto como parecia", pensou ela." Ela não é tão magra como aparentava", observou ele.Mas, enfim, logo estava conversando sobre os mesmos assuntos que os uniu naqueles longos papos durante meses. Ele era romântico. Ela era idealista.Pouco tempo depois, veio a proposta de casamento. E eles casaram. E durante algum tempo, foram felizes. Realmente tinham muitas coisas em comum e Eles já sabiam disso.O que ainda não sabiam era que existiam inúmeras outras coisas em que eles discordavam. De início, uma discordiazinha aqui e outra ali. Um dos lados cedia e tudo ia bem. Até cada um começar a defender o seu front com unhas e dentes. Foi aí que a paixão começou a desandar. Um foi deixando de gostar do outro, mesmo que ambos ainda gostassem de comer polenta com leite e ouvir Bee-Gees.Sei lá, faltava alguma coisa naquela relação que não estava mais dando certo (uma tela de computador?). Eles até que tentaram. Ele tinha o seu computador na sala. Ela mantinha o dela no quarto. De vez em quando, teclavam por alguns minutos antes de ficarem off um para o outro. Mas não era mais a mesma coisa teclarem. Talvez faltasse a distância, talvez faltasse o que hoje sobrava: eles se conheciam demais. O que aconteceu depois foi inevitável para o fim do casamento. Ela o flagrou com outra. No MSN.

Nove meses

Ela estava com o envelope nas mãos, sem coragem de abrir. Sentada na praça, mordia nervosamente o canudinho mergulhado na lata de Fanta e olhava para os lados. Estava esperando por ele. Alguns minutos atrasados depois ele chegou, também nervoso, dando explicações para o atraso. Não importava. Ela o aguardou para que, juntos, abrissem o envelope mais importante de suas vidas, o que iria mudar a forma como eles enxergavam a vida até esse dia, nessa praça. Abriram. "Estou grávida", ela disse. Logo, veio um friozinho na barriga e ela ficou tonta. Ele ajudou ela a sentar. "E agora?", ela perguntou, na insegurança de seus 16 anos. "Não sei, eu sou muito novo", respondeu ele. "E eu, o que sou?", ela se desesperou. Ele jogou o envelope no colo dela. "Preciso pensar". E foi embora (e não voltou mais..).E, assim, ela ficou sozinha, com medo de tudo, sem ter coragem para nada. Sentia-se frágil e insegura como jamais tinha se sentido. Com o passar das semanas, foram surgindo dificuldades e foram aparecendo ainda mais responsabilidades. A pessoa que esperava que ficasse ao seu lado não estava, porém, muitos outros a amparavam. Ao contrário do que pensava, muitos se importavam com ela e a amavam. O medo que tinha de contar para os pais, mostrou-se exagerado. Eles estavam, sim, ao seu lado. Mesmo assim, ela tinha medo e acordava chorando, em sua aflição de mulher. E assim foi, durante nove meses. Foi numa manhã de primavera que, finalmente, ela nasceu. Delicadamente os médicos colocaram aquela frágil criaturinha em seus braços. E a menina-mãe mal se se aguentava em sua ânsia de abraçá-la bem apertado, junto ao seu corpo e beijá-la, em meio à lágrimas. Durante nove meses, tinham sido uma só. Hoje ela era mãe e a menina em seus braços era "Thaís". Os pequenos olhinhos encaravam a mãe, que viu-se inundada de uma coragem que jamais havia sentido antes. "Tudo vai dar certo. Agora eu sei.", dizia com lágrimas de alegria rolando por seu rosto...

Um dia em que o mundo não acabou...

Ele não tinha muitas lembranças daquele dia. Cada vez que tentava se lembrar, pouca coisa vinha a mente. Algumas imagens, talvez, que antes eram cristalinas, hoje um tanto enuveadas pelas brumas do tempo, mesmo que não tenha sido há tanto tempo. As lembranças lhe pareciam mais vivas no peito. Dava uma sensação esquisita que parecia surgir como que um friozinho na barriga, que ia subindo e dava uma paulada no coração. É aí que ele sentia que sentia muito mais que era capaz de lembrar. E é aí que ele sentia que a mente pode até mentir e ir deletando o seu arquivo de imagens aos poucos, mas o coração não. Engraçado, naquele dia não há notícias de que tenha ocorrido algum eclipse lunar ou solar. Nem se houve a passagem de algum cometa. Não se sabe da ocorrência de algum fenômeno sobrenatural, ou que tenha sido avistado algum disco voador, se houve quebra na bolsa de valores, nem da queda um avião, se alguém recebeu um prêmio Nobel, se houve alguma possibilidade de paz mundial ou se algum maluco quase apertou o botãozinho vermelho e disparado milhares de bombas nucleares. Naquele dia, nem mesmo há notícias de que alguém tivesse ganhado sozinho na Mega Sena acumulada, nem que a cura do câncer tenha sido anunciada. Daquele dia, também não há lembranças menores como a do vôo de um colibri, ou que alguém tenha recebido flores, ou mesmo de crianças jogando bola na rua, ou que um senhor tenha tirado o chapeu e desejado "um bom dia". E,a ssim, nada de especial parece ter acontecido naquele dia. Um dia como qualquer outro, que poderia ter sido deletado do arquivo de sua vida como qualquer outro. A não ser por um detalhe, que fez toda a diferença: foi naquele dia que ele cruzou o olhar com o amor de sua vida. E mesmo que tivesse acontecido tudo o que ele pensou que pudesse ter acontecido, naquele dia nada mais no mundo importaria.

Cinzas mitológicas

Em determinada cidade, algumas pessoas diziam ter visto um gigantesco pássaro com penas cor-de-fogo cruzar pelos céus, entoando um canto melodioso e triste. A notícia se espalhou de que se tratava de uma ave rara e, por isso mesmo, caríssima. Encontrá-la seria comprovar a existência de um mito antigo e conquistar status e dinheiro. E, assim, alguns se puseram à procura daquele pássaro, não logrando êxito. Nesse tempo, o mundo estava mergulhado na escuridão da ganância e do individualismo. O mito do pássaro ganhava notoriedade e instigava o deboche, tal qual se debochou do famoso chupa-cabra.No entanto, foi numa tarde de verão que o pássaro surgiu nos céus, aos olhos de todos, tal qual era descrito pelos rumores. E entoou o seu canto por onde passou. Em seu íntimo, o pássaro despertou a força naqueles que eram fracos, a coragem nos que eram covardes, o amor nos que nutriam sentimentos nobres, a esperança para os desesperançosos e a alegria para quem estava triste. Também despertou o arrependimento nos corações trevosos. E as lágrimas rolavam no rosto de todos os que contemplaram aquela raridade, que tinha algo de divino e, talvez, de profano. A ave pousou nos galhos de uma árvore na praça e todos correram para observá-la, tirar fotos e admirar a sua beleza. Foi quando um tiro abriu um rombo no peito da ave, que tombou fulminada. A multidão se voltou para o homem armado. Por um momento, todos o encararam, resignados. Mas antes que ele pudesse dar um passo, cairam em cima dele, raivosos, desarmando-o e chegando a linchá-lo por ter dado fim a algo tão belo. Foi quando alguém apontou para o pássaro, que havia sumido. Em seu lugar, apenas cinzas...

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Morte & Vida

Eram irmãs e tinham funções semelhantes e a mesma importância para o equilíbrio do universo. De vez em quando, até cruzavam caminhos, mas nunca cruzavam olhares. Cada qual fazia o seu trabalho, silenciosamente, sem se importar com a outra. Ouviam lamentações a respeito de uma e de outra, mas nunca emitiam suas opiniões. Certo dia, porém, um golpe do destino, fez com que algo mudasse. Uma humana estava com dificuldades no parto e havia risco de vida tanto para ela, quanto para a criança em seu ventre. Seu esposo, ébrio, aguardava desesperado no saguão do Hospital. Ajoelhado no chão ele rezava pela vida de sua amada e e seu herdeiro. Eis que uma bela mulher de vestes alvas, aproxima-se, compadecida de sua dor e toca-lhe a face.
"Acalma-te, criança. Conheço-te deste o teu primeiro choro. Sois incapaz de compreender o tênue véu da existência. Não te desesperes", ela o consola. Ele rechaça. "Não sabe do que está falando. É a minha mulher e o meu filho que podem morrer", grita. "Nada acontecerá com teu rebento. Eu sou Vida e acompanho o teu filho". Num piscar de olhos, a mulher desaparece de sua visão, como se nunca tivesse estado ali. Alucinação?Na sala de parto, ela contempla o desespero de uma mãe, com lágrimas, suor e sangue no rosto, dando suas últimas forças para que o filho nascesse. Ao seu lado, uma jovem de trajes escuros e olhos negros. Alguém que ela conhecia muito bem: sua irmã, Morte. Foi a primeira vez que elas cruzaram seus olhares infinitos. Foi nesse instante que as duas se apaixonaram...

Os médicos faziam de tudo para salvar a vida da mãe e de seu filho durante o parto. Os aparelhos indicavam que aos poucos a mãe ia se despedindo da vida. A Morte, ao seu lado, encarava Vida à sua frente. Uma indicava a luz para a criança que nascia. A outra aguardava a mãe, para acompanhar-lhe a porta de saída. “Ramente nos cruzamos, não é mesmo?”, disse Morte. Vida sorri. O menino está nascendo. “Nascido do sangue ele vem ao mundo. Seu pai o aguarda, acreditando amá-lo desde já. No entanto, desconhece seu destino, tampouco sabe de onde ele veio. O amor de uma mãe é algo infinito. Ela se esvai para que a criança alcance minhas mãos. Te peço que não a tome ainda”, diz Vida. “Seus olhos são lindos. E tristes”, diz Morte.

“Atendo seu pedido em troca de um beijo seu”, oferece Morte. Mesmo ansiando por isso, Vida repreende. “Como podes negociar um capricho em troca de algo que não te pertence?”. Morte chega bem junto de Vida e a encara de perto. “Acaso os deuses não podem manifestar seus caprichos? Só quero um beijo e a mulher poderá dar a luz”, barganha. Vida a encara. “No momento em que a vi, tomei-me de um sentimento comum aos humanos. Acariciaria o teu rosto e me entregaria aos teus braços. Amo-te. Mas nego-te. Pois meu amor pelos pequenos é maior”. Morte meneia a cabeça. “Eis a tua criança”. O médico retira a criança, que recebe o sopro de Vida e chora. A mãe sorri e derrama a sua última lágrima. Morte lhe toca a fronte e lhe suga o sopro, que Vida concedera para aquela fêmea há um par de décadas atrás. “Alguém nasce, alguém morre. Triste sina”, ela ironiza. “Já notou como somos parecidas? Você as retira de um lugar e conduz até aqui. Eu as retiro daqui e levo para outro plano. A difrença é que eles te celebram. A mim, eles temem. Terrível simetria”, diz Morte enquanto ampara a jovem mãe, que não compreende o diálogo que testemunha, e chora ao tentar abraçar o filho com seus braços intangíveis, que não conseguem tocar o pequeno corpo que repousa nos braços do médico. “Ela morreu”, diz uma enfermeira. “Fazer o quê”, dá de ombros Morte. “Espere. Façamos um acordo. Hoje, nesse instante, eu te peço que não cumpras a tua função. Não a leve e deixe que eu sopre novamente a sua face para que, como mãe, não desampare este pequeno que recém cruzou o véu”. Morte encara vida. “E?”. Vida chega próximo da irmã. “E eu dar-te-tei aquele beijo. Que eu mesma desejo dar”. Morte acaricia os cabelos de Vida. “Veja só. Caprichos de uma deusa. Você sabe que preciso levar alguém que ainda esteja contigo”. Vida consente. “Eu sei. Mas não a estes, eu te peço”. Morte consente. “Ok. Me beije”. E ambas se beijam. Enquanto isso, os médicos comemoram a retomada dos sinais vitais da jovem mãe. “Ambas somos belas juntas”, diz Morte para Vida antes de se despedir. No corredor, alguém ia até o pai desesperado dar a notícia de que mãe e filho estava bem. Mas um ataque cardíaco fulminante o encontrara antes...

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O grande coisa

Já há algum tempo, ele curtia a satisfação de ser o diretor-adjunto de relações estruturais e organizacionais de uma determinada empresa. Usava um crachá personalizado, tinha seu nome na porta e sabia dar ordens como ninguém. Eis que era chegado o dia de seu aniversário e ele pretendia oferecer uma festa para se entrosar um pouco mais com os colegas. Alugou um clube, no dia do evento, uma surpresa: ninguém estava lá. Só, ele tomava umas cervejas. "Pelo jeito, seus amigos não gostam muito de ti", provocou o faxineiro, antecipando o serviço. Ele sentiu raiva e, num segundo, fez o quadro mental da resposta. Iria substituir os responsáveis por cada setor e deixaria de dar moleza na firma. Antes que continuasse com seu plano diabólico, o faxineiro indagou?
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"De que forma você contribuiu com o mundo?". Foi derrubado de seus pensamentos. "Como é?", perguntou. "Teu trabalho é importante para o mundo, ou só fazes assinar papéis sem importância?". Ora que pergunta. Se vê bem porque aquele sujeito era apenas um faxineiro e ele um diretor-adjunto de...foi aí ele se deu conta. De que forma ele contribuia com o mundo, através de seu cargo, sem importância? "Sou faxineiro. Meu trabalho é limpar. Sinto-me feliz, pois acho que contribuo com alguma coisa". Depois disso, pode ter sido radical o que aconteceu depois, mas resolveu dar um rumo em sua vida. Largou o cargo e se foi para o interior plantar tomates, escrever poemas e cultivar amizades. Não sentia que hoje estivesse contribuindo com o mundo, mas pelo menos, não estava mais sentindo-se culpado por estar atrapalhando...