Em silêncio, ele olhava para a sua bela esposa deitada e quase dormindo ao seu lado na cama. Há 30 minutos, os dois estavam com seus corpos colados e cobertos de suor. Ele deslizou a mão por suas costas macias e nuas, causando leves arrepios nela, que costumava gostar dessa sensação. Há 32 minutos eles gozaram juntos, depois de muito sexo. Em silêncio, ela sentia os dedos do esposo deslizarem por seu corpo, num carinho frio. Há 50 minutos ele tirava a roupa dela e chupava os seus seios com voracidade. Naquele instante, nenhum dos dois queria falar mais nada e ficavam ouvindo o próprio silêncio e adivinhando cada suspiro um do outro como se fosse o prenúncio para algo que seria dito. Nenhum dos dois quis dizer mais nada.
Ele levantou-se da cama e caminhou até a cozinha, evitando de pisar em cacos de vidro. Há duas horas, os dois tiveram uma terrível discussão, mais uma. Ele abriu a geladeira e pegou uma garrafa de água mineral, abri e bebeu num gole só, matando a sede e tirando o gosto do sexo dela que ainda sentia em sua boca. Há duas horas e quinze minutos ela arremessou uma travessa com lasanha no chão.
Depois de beber, ele foi até a torneira e encheu novamente a garrafa, colocando-a de volta na geladeira. Sabia que ela implicava quando ele as deixava pela metade ou quando o flagrava bebendo no bico. Há três horas, ele pediu o divórcio mais uma vez. No quarto, ela tentava dormir buscando esquecer as palavras duras que ele mais uma vez proferiu, com sua fúria. Há cinco horas ela cozinhava para ele, esperando-o. Com os olhos fechados, ela ouviu o barulho na cozinha. Por algum milagre, ele devia estar enchendo a garrafa de água. Há sete horas ela ligou para sua melhor amiga para chorar as mágoas, acreditando que ele estava se encontrando com a amante.
No banheiro, ele fechou o zíper de sua calça e puxou a descarga. Olhou-se no espelho, desgostoso com sua própria imagem. Há seis horas, ele prometeu para alguém que iria se separar. Ele caminha até o quarto onde repousa o seu filho e lhe beija a face. Há dois anos, ele o levava para o colégio pela primeira vez. Ela ouviu o barulho na porta do quarto do menino, o pai dele havia entrado lá. Há oito anos eles foram juntos no ginecologista.
No quarto, o menino dormia com seu MP3 nos ouvidos. Ele não queria ouvir a briga dos pais. Há oito anos, ele fazia fotos enquanto ela o amentava no peito. Ele fechou a porta do quarto e atravessou a casa sem fazer barulho. Pegou sua chave, abriu a porta dos fundos e caminhou em direção a garagem.
Há 10 anos ele conheceu sua esposa. Ela era linda e compreensiva. No quarto, ela ouviu o barulho da chave na porta dos fundos. Será que ele estava saindo furtivamente para encontrar aquela vadia de novo? Há nove anos, os dois ficaram noivos. Ela se vestiu rapidamente para seguí-lo, pois não aguentava que isso continuasse acontecendo, não era isso o que queria para a sua vida.
Na garagem, ele pensou várias coisas ao mesmo tempo, parecia que sua vida tinha se passado diante de seus olhos, todas as horas de sua existência com a velocidade de um piscar. Há oito anos, ele jurou que iria ficar com ela até que a morte os separasse e beijou seus lábios coloridos de batom.
Vestida, ela atravessou a casa, correu até a porta dos fundos e saiu para fora. Ela ouviu um som retumbante na garagem, alguma coisa tinha acontecido. Ela abriu a porta e o enxergou com a cabeça mergulhada numa poça de sangue e uma arma na mão. Há 10 segundos ele se matou...




7 comentários:
Impressionante! que mais posso dizer diante do que li? Juro que quando comecei achei que seria longo e talvez mais uma coisinha sobre namoro ou sexo, mas a forma como narrou os fatos me prendeu que não consegui parar até chegar ao último ponto final. Acho que fiquei até sem ar, por falta de respirar, tamanha era minha concentração na leitura.
Adorei, embora a história seja muito triste ainda que possa ser real.
Abraço e ótimo final de semana.
Angela
Não sei muito o que dizer, mas... li dois ou três dos seus textos, e eles são incríveis - estás no ramo certo, acredite. Simplesmente adoro contos, tentei escrever alguns, mas não sei bem ao certo como me saí, rs.
Aliás, vim agradecer por ser meu seguidor, fico feliz que existam pessoas lendo minhas palavras!
Olá Márcio! Sou completamente apaixonada por esse texto. Pra mim, é um dos melhores seus. Me identifico muito com o que você escreve. Parabéns! Um beijo!
É... vai tempo que não leio alguém com mãos fortes, senso apurado e ideias realmente claras.
Amigo, que bela toada, não?
A lógica nos leva, mas é a sua condução que faz o raciocínio liquidificar o que a mente chama de vitamina.
Partes que montam um todo único.
Parabéns!
Não consegui achar o botão para seguir o blog. Sim. Quero (preciso) voltar mais vezes.
Abraços
Olá... gostei muito do conto, não consegui parar de ler enquanto não descobria a que se referiam os 10 segundos. Muito boa a maneira que você escreve =)
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